Projetos refletem como afetos, histórias familiares e referências culturais ganham forma com a arquitetura e o design

A arquitetura tem o poder de criar espaços, mas também de preservar histórias. Na CASACOR São Paulo 2026, alguns ambientes vão além das escolhas estéticas e funcionais para se tornar verdadeiras homenagens a pessoas que marcaram trajetórias pessoais e profissionais de seus autores. Entre memórias familiares, referências culturais e afetos transformados em matéria, os projetos revelam como o morar pode ser também um exercício de lembrança, reconhecimento e permanência.
Alinhados ao tema da mostra, “Mente e Coração”, os ambientes assinados por Rafaella Manso, Gabriel Fernandes, Nildo José, Felipe Carolo e Clara Nahas utilizam a arquitetura como linguagem para celebrar legados, revisitar histórias e dar forma a vínculos que atravessam gerações.
A música também conduz a narrativa de Notas em Linhas, ambiente assinado por Rafaella Manso Arquitetura. Instalado no primeiro casarão do percurso, o projeto de 74m² tem como ponto de partida um piano de 1951 que pertenceu à avó da arquiteta e que marcou momentos importantes de sua infância. A partir dessa lembrança, o espaço constrói um percurso sensorial guiado por luz, ritmo e contemplação. As linhas inspiradas nas partituras musicais aparecem em diferentes elementos da composição, enquanto o piano assume o papel de memória viva, transformando uma história familiar em arquitetura. Entre silêncio, afeto e pertencimento, o ambiente celebra as origens da profissional e o poder das recordações que atravessam gerações.

Na Casa Simonetto – Tributo a Janete Costa, de 160m², Gabriel Fernandes presta homenagem à arquiteta e designer pernambucana Janete Costa, reconhecida por seu trabalho de valorização da arte popular brasileira. A monumental estante com acabamento de pau-ferro, customizada com gavetas entalhadas manualmente pelo artesão Nelinho, de Tiradentes (MG), sintetiza o diálogo entre arquitetura, cultura e tradição. Mais do que reverenciar uma referência profissional, o projeto resgata a importância dos saberes populares e da produção manual como parte fundamental da identidade brasileira.

A memória familiar conduz a narrativa da Casa Coral Celeiro Alvorada, assinada por Nildo José | NJ+ Arquitetos. O espaço de 213m² nasce como uma homenagem ao pai do arquiteto e propõe um olhar sensível sobre pertencimento, continuidade e afeto. Referências à vida no campo aparecem em diferentes momentos do projeto, desde a grande estante que reúne fotografias, poemas e livros até a lareira esculpida em travertino com símbolos ligados ao universo rural. A arquitetura assume o papel de guardiã das lembranças, transformando experiências pessoais em uma narrativa universal sobre os laços que permanecem ao longo do tempo.

Já em Casa Jacob | Itaú Personnalité, Felipe Carolo Arquitetura celebra os 100 anos de vida de seu avô, Jacob, figura decisiva em sua formação pessoal e profissional. O loft de 77m² incorpora móveis e objetos herdados da família, além de peças garimpadas que reforçam a ideia de longevidade e permanência. A escrivaninha utilizada pelo avô, um aparador de família e um antigo baú atravessam o tempo para ocupar novos significados dentro da composição. Ao unir memórias afetivas, design contemporâneo e referências vintage, o projeto reflete sobre herança emocional, sucessão geracional e a capacidade dos espaços de manter vivas as histórias de quem veio antes.

No Estúdio Semibreve, o Estúdio Clara Nahas encontra na música o ponto de partida para uma homenagem à mãe, pianista, e à própria trajetória familiar. Inspirado na figura musical que representa a nota de maior duração, o ambiente de 55m² celebra o tempo desacelerado, a escuta e os encontros. A música permeia toda a narrativa do projeto, seja no canto dedicado à vitrola ou na partitura emoldurada composta pela mãe da arquiteta no dia de seu nascimento. Em uma casa sem televisão e pensada para a conversa, a memória se manifesta de forma delicada, transformando lembranças íntimas em uma experiência acolhedora e sensível.
Embora distintos em linguagem, escala e estética, os quatro projetos compartilham um mesmo desejo: transformar a arquitetura em um veículo de transmissão de histórias. Em comum, eles demonstram que os ambientes podem ir além da função de abrigar para também preservar memórias, celebrar legados e criar conexões emocionais capazes de atravessar o tempo.
Na CASACOR São Paulo 2026, as homenagens permeiam em paredes, objetos, obras de arte e escolhas projetuais. Esses espaços mostram como a arquitetura pode ser uma poderosa ferramenta para manter vivas as narrativas que moldam identidades, relações e modos de habitar.
Serviço:
39ª edição da CASACOR São Paulo será realizada até 9 de agosto, com funcionamento de terça a domingo, incluindo feriados, sempre das 11h às 22h.











