A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores

354

O arquiteto Bruno Moraes destaca a importância de se criar ambientes com vida e significado por meio de peças artísticas na composição dos lares

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE
Na CASACOR SP 2024, o arquiteto Bruno Moraes exemplifica como trazer arte para o ambiente, onde cada peça foi escolhida com um propósito claro: criar um espaço vivo e significativo | Projeto BMA Studio | Foto: Guilherme Pucci

Imagine entrar em uma sala onde cada parede conta uma história, onde cada curva revela um pedaço da alma de quem ali habita, onde cada cor presente desperta alguma sensação em quem observa. A arte, de capacidade única para emocionar e inspirar, não é algo apenas reservado a museus e exposições, mas também um forte elemento para o projeto de interiores. Contudo, escolher uma peça para o próprio lar não é uma tarefa fácil, considerando-se que, por mais bela ou cara que seja, ao ser colocada aleatoriamente no espaço pode perder todo o seu potencial de impacto e integração. Por essa razão e inspirado pelo ambiente criado para a CASACOR São Paulo 2024, onde concentra diversas obras de arte selecionadas criteriosamente, o arquiteto Bruno Moraes, à frente do BMA Studio, compartilha a sua convicção de que escolher peças de arte requer sensibilidade, visão e, acima de tudo, uma profunda conexão com cada peça.

A galeria do lar

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE1
Para Bruno Moraes, a conexão emocional é o principal critério na escolha de obras de arte, por isso sugere que as peças devem contar uma história que se alinhe com a vida dos moradores | Projeto BMA Studio | Foto: Guilherme Pucci

Transformadora de todos os ambientes onde se insere, a arte desfruta de uma série de qualidades que elevam o espaço a uma dimensão onde cada tela, escultura, objeto ou foto se torna um portal para a introspecção e a conexão emocional. Dentre as benesses do uso artístico, Bruno enfatiza quatro características importantes:
• Estética: A composição adiciona cor, textura e um ponto focal visual. “A beleza de uma obra de arte é um diferencial na decoração dos ambientes”, diz;

• Expressão pessoal: A arte permite que os moradores expressam sua personalidade, gostos e interesses que refletem a individualidade de uma pessoa, o que torna a casa um espaço mais pessoal e único;

• Intelectual: Provoca reflexão e discussão já que são criadas para desafiar percepções, contar histórias ou transmitir mensagens profundas;

• Apoio artístico: Adquirir arte é uma maneira de apoiar diretamente artistas e a indústria criativa. “Muitas pessoas gostam de saber que estão contribuindo para a carreira de um artista”, completa o arquiteto.

Além disso, o arquiteto acredita que uma peça artística somente atinge o seu potencial quando escolhida e posicionada com a intenção guiada pela conexão emocional e pessoal. Seja mediante uma ligação com a história familiar, momentos significativos ou, simplesmente, uma admiração profunda pelo artista ou pelo estilo, a escolha de cada peça deve refletir a vida e as experiências de quem habita o espaço. “Seja com a história pessoal, familiar ou cultural, a casa deve ser um espelho das nossas vivências, dos ciclos da vida. É tão importante estar em casa e reviver momentos como: ‘isso aqui foi da nossa lua de mel’, ‘isso aqui lembra minha infância’, ‘isso era da minha avó’. Isso dá alma ao ambiente”, afirma Bruno.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE2
Entre os móveis, a icônica Poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues (Full House), em sua primeira edição de jacarandá, destaca-se não apenas por sua raridade e valor, mas também por sua conexão estética e histórica | Projeto BMA Studio | Foto: Guilherme Pucci

Para além da identificação pessoal, o profissional também orienta que sejam observados mais dois aspectos para a seleção:

• História e contexto: Prefira peças que contem uma história ou tenham um contexto interessante. Por exemplo, uma obra que representa um momento histórico ou cultural significativo. Para ele, a peça precisa ter um significado por trás, algo que vá além da mera decoração;

• Sustentabilidade: Considere a origem e os materiais das peças. Obras feitas com materiais sustentáveis ou reciclados podem adicionar uma camada de significado ao espaço. “Ainda mais porque a sustentabilidade é um tema cada vez mais importante dentro do design de interiores,” observa.

Curadoria com alma

No ambiente ‘Acalanto e Encontros’, criado por Bruno Moraes para a CASACOR SP 2024, vários objetos foram selecionados com base nesses princípios. Neste ano, a mostra traz uma reflexão sobre o futuro da ancestralidade e o que está sendo deixado pela humanidade para as futuras gerações, principalmente no que diz respeito às habitações e estilo de morar. Inspirado pela temática, Bruno conta que a peça de arte principal é uma impressionante escultura do soteropolitano Mário Cravo, que encapsula a essência do tema. A obra é parte da série ‘Cabeças’ e foi criada a partir de destroços de um incêndio no Mercado Modelo de Salvador em 1985, simbolizando renovação e resistência.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE3
Parte da série de 35 esculturas que representam a crença de Mário Cravo no poder da morte como renascimento e também refletem como o novo devora o antigo | Projeto BMA Studio | Foto: Vitor Guilherme

“A escultura ressoa com o tema da ancestralidade da CASACOR e também carrega um valor sentimental profundo, representando a capacidade de transformação e recomeço após adversidades. Além de seu significado histórico e emocional, a Cabeça também é um testemunho da brasilidade, valorizando a cultura e a arte nacionais”, reflete o arquiteto.
Outro destaque no ambiente é a escultura de Rodrigo Torres, um quadro em cerâmica que Bruno encontrou de passagem em uma galeria de arte. Para ele, a escolha foi impulsionada pela conexão pessoal imediata que sentiu ao vê-la, uma paixão à primeira vista que se alinha perfeitamente com o sentimento de criação do ambiente. Intitulado “Vovó preparando o lanche, pôr do sol de Outono, Minas Gerais”, o quadro de porcelana esmaltada sobre chassi de madeira evoca um sentimento de nostalgia e memória afetiva, reforçando a importância dos ciclos da vida e das histórias pessoais.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE4
Parte da série ‘A Trilha do Esquecido’, o artista busca encontrar pequenos vestígios e vislumbres de lugares e tempos que não existem mais | Projeto BMA Studio | Foto: Vitor Guilherme

“A peça do Mário Cravo, por exemplo, tem um contexto histórico e emocional muito forte, enquanto a obra de Ricardo Torres traz a nostalgia de um café da manhã com um ente querido, conectando-se com memórias pessoais”, explica o arquiteto.
Para representar a sustentabilidade, Bruno integrou a foto de Kiolo, que retrata uma cena de Salvador ligada ao movimento ‘Somente Flores para Iemanjá’. Ela promove ações para manter acesa a chama de tradições afro-brasileiras ancestrais e diálogos sobre a crise climática, além de estimular os seguidores a oferecer apenas flores como oferenda à orixá para evitar o acúmulo de lixo nas praias.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE5
um sentimento espontâneo. Esse é um dos momentos que centro minha energia para agradecer a nossa Mãe Iemanjá Odoyá, por todas as conquistas alcançadas na minha vida”, descreve a moça da foto em depoimento | Projeto BMA Studio | Foto: Vitor Guilherme

No coração do Acalanto e Encontros, o tapete do ambiente, assinado pelo escritório BMA Studio, é outra peça central que sintetiza o tema da CASACOR. Desenvolvido com a ajuda de Inteligência Artificial e utilizando retalhos de tapetes antigos, ele representa a conexão entre passado, presente e futuro, integrando música, tecnologia e sustentabilidade, pois ele é uma canção de ninar indígena, congelada no tempo e na arte. “A peça é parte de uma ancestralidade futurística, onde cada onda sonora foi isolada e depois montada em uma composição para o desenho do tapete, a partir disso nós utilizamos de restos de tapeçaria para criar algo novo”, completa.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE6
Bruno Moraes reproduziu em tapeçaria (By Kamy) a música Tenonderã, do Guarani que significa ‘um olhar para o futuro’ | Projeto do BMA Studio para a CASACOR São Paulo | Foto: Guilherme Pucci

O arquiteto também integrou objetos pessoais e familiares no ambiente, adicionando camadas de história e afeto, como um livro raro, edição especial da Divina Comédia, um rádio e despertador antigos. Estes itens trazidos da casa de sua família adicionam um toque pessoal, voltado para a própria ancestralidade. “O ambiente não é uma vitrine. Quero que as pessoas que adentram o ambiente, sintam uma conexão, como se estivessem em casa. A minha ideia é de um ambiente vivo com histórias, personalidade, brasilidade, memórias e carinhos”, explica.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE7
Como um gallery wall, as prateleiras estão reservadas para objetos que pertencem à família de Bruno, fotografias dos Jogos Mundiais Indígenas por Rogério Fernandes, cerâmicas de artistas brasileiras, como Rosalva Siqueira e Mariana Neves, entre outros | Projeto BMA Studio | Foto: Vitor Guilherme

Da mesma forma, o banquinho ‘Piúba’ de Léo Ferreiro, exposto no salão do Brasil na Semana de Design de Milão em 2024, possui uma inspiração nas jangadas, típicas embarcações e símbolos do Ceará, que estão ligadas diretamente com a memória afetiva do artista.

A conexão entre arte e espaço no projeto de interiores - ARTE8
O banco Piúba surgiu como uma expansão da arte de Ferreiro e, assim também se conecta com a narrativa do litoral cearense | Projeto BMA Studio | Foto: Vitor Guilherme

E para aqueles que não possuem expertise em arte, o arquiteto Bruno Moraes recomenda a consulta com um especialista para evitar falsificações, garantir a autenticidade das peças adquiridas e obter conselhos quanto à compra. Assim, a casa não se torna apenas um local de moradia, mas um verdadeiro espelho das histórias e dos ciclos de vida de seus moradores.